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O ABC da Língua Culta

Cláudio Moreno

Para os que se interessam, como nós, pela língua portuguesa, esta é, sem dúvida, a mais importante notícia do ano: a Editora Globo acaba de lançar o tão esperado ABC da Língua Culta, do nosso insubstituível professor Luft. Meu amigo Voltaire Schilling, ao ser informado da notícia, apenas exclamou, entre encantado e boquiaberto: "Quinhentas páginas? Do Luft? Que maravilha!". E é sobre isso que venho falar.

Não faz muito tempo, dediquei duas colunas inteiras à etimologia e ao significado da palavra aluno. Algumas leitoras mais sensíveis ficaram impressionadas diante do tom ríspido, quase desaforado, que adotei naqueles textos, como se eu estivesse (disse uma delas, bem-humorada) "aos tapas e safanões com algum desafeto invisível". Pois estava mesmo, cara leitora; aquela era uma velha rixa que resolvi acertar de uma vez por todas, cansado de assistir à detratação sistemática que alguns setores pedagógicos vêm fazendo às duas figuras que realmente importam na educação - o professor e o seu aluno. Que aqueles teóricos defendam lá suas ideias, é direito assegurado pela Constituição - mas não me venham, por favor, falsificar a etimologia de uma palavra tão nobre para justificar aquela ficção lamuriosa que defendem (para eles, o termo aluno é ofensivo porque significaria "sem luz”, blablablá, blablablá). E pensar que temos de escrever artigo sobre artigo (já se publicaram dezenas, todos denunciando a mesma impostura) para esclarecer uma questão que poderia (e deveria) ser encerrada com uma simples consulta a qualquer bom amansa-burro...

Na ocasião, declarei, com muito orgulho, que fui e ainda sou aluno de Celso Pedro Luft, professor e verdadeiro mestre, cuja obra deixou uma marca indelével no estudo e no ensino do Português no Rio Grande do Sul - um caráter único, peculiar, que não se encontra nos demais Estados (prometo, prezado leitor, que não vou fazer nenhuma declaração ufano-separatista). Teorias sociológicas à parte, isso não teria ocorrido sem ele, sem suas virtudes pessoais. O professor Luft foi o único gramático de renome que reuniu a formação sólida de um filólogo clássico, a atitude eternamente investigativa de um cientista, a valiosa experiência de um professor e o bom senso e a tolerância de um homem sábio. Os outros Estados viviam uma guerra civil gramatical, declarada entre os linguistas (que se dedicam a descrever o idioma e a entender o seu funcionamento) e os prescritivistas (gramáticos autoritários, caga-regras intolerantes, juízes absolutos do que é certo ou errado). Os primeiros se entrincheiraram nas universidades e se recolheram à pesquisa, enquanto os últimos trataram de assumir o poder dos livros didáticos, das bancas de concursos públicos e dos consultórios gramaticais. Como parte de sua estratégia bélica, cada exército lutava para dominar o ensino do Português e, assim, perpetuar seus ideais. “Solta a linguagem!", diziam uns; "Prende!", diziam os outros (este conflito, aliás, ainda continua vivo em muitos corações e mentes por aí...).

Pois nós tivemos muita sorte. A presença de mestre Luft por aqui inibiu qualquer beligerância. Os cães raivosos do "é proibido", do "absolutamente errado", do "não pode” foram lamber as feridas no canil; os linguistas mais serelepes, os libertários pós-Woodstock, defensores do "pode tudo”, perderam um pouco de seu ânimo juvenil ao encontrar pela frente não os adversários sectários de sempre, mas a figura serena de um estudioso de mente aberta, que estava disposto a entendê-los e que - e é aqui que bate o ponto - conhecia nossa língua muito mais do que todos eles reunidos. A superioridade de mestre Luft nesta área era tão flagrante que jamais se soube de alguém que a contestasse. Para que o leitor julgue o quanto isso é excepcional, saiba que, segundo o saudoso Jose Pedro Rona (mais um professor!), nada é mais terrível, na natureza, que a briga de dois cachalotes - exceto, é claro, a discussão entre dois gramáticos...

Ninguém conseguiu, como Luft, fazer a mediação entre o estudo científico da linguagem e a gramática escolar do Português. Nunca ombrear com os especialistas em linguística; mantinha com eles, aliás, uma relação absolutamente cordial, acompanhando com entusiasmo e admiração verdadeira o trabalho que eles desenvolviam. Não se filiou a nenhuma escola em particular, pois seu Interesse era outro: aproveitar o poder explanatório das novas teorias para melhor entender - e, assim, melhor explicar - a estrutura e o funcionamento do idioma. Aproveitava o que lhe parecia útil. Este ecletismo, que certamente deixou um ou outro académico de nariz torcido, era consciente e intencional: "Procuro deitar as redes onde me palpita haver peixe”, disse ele, textualmente, no prefácio da Moderna Gramática Brasileira.

(Continua no dia 31)


Sábado, 17 de julho de 2010.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.